Minha família se mudou para Tremembé, cidade próxima, uns 15 quilômetros, a Taubaté, lá por volta de 1986, estava, então, com 10 anos de idade. Com essa idade ainda estava na terceira série do primário, o que hoje seria o quarto ano do ensino fundamental, pois havia cursado o pré primário duas vezes, por motivos que explicarei em outra ocasião. Da segunda vez que cursei o pré primário até a quarta série, fui transferido de escola pelo menos uma vez por ano, por que meu pai precisava procurar melhores oportunidades de trabalho, quando cheguei a Tremembé, em setembro, acho, já era a segunda transferência aquele ano - de Peruíbe para Osasco, no primeiro semestre e de Osasco para Tremembé, no segundo. Quando cheguei à escola em que fora matriculado ao chegar a cidade, tive a mesma má impressão que tive quando cursei o pré primário pela primeira vez - este é só um dos motivos - só que desta vez muito mais forte: nunca havia visto tantas crianças, tão pobres e tão carentes antes, não só de bens materiais ou sociais, mas também de senso afetivo e simbólico. Como minha irmã, um ano mais nova do que eu, era muito mais esperta, desinibida e articulada do que eu - eis o motivo por que consegui terminar o pré primário, a segunda vez que o cursei, e avançar até o segundo ano do colegial, hoje, ensino médio, sem repetir uma única vez e sempre com notas boas: cursamos a mesma turma desde então -, me aproveitei dela, mais uma vez, para me enturmar, como se ela fosse minha fonte de propaganda e confiabilidade, apesar de nada estar me agradando ali; mas era preciso diluir-se.
Ainda na primeira semana, a professora, não me lembro uma letra de seu nome, mas acho que todas as minhas professoras do primário se chamavam Cidinha, ou pelo menos uma delas deve ter tido este nome, pediu a classe, me incluindo nela, que fizesse uma redação com tema livre: antiga moda em escolas públicas do estado de São Paulo, que, segundo as autoridades pedagógicas, seria um ótimo instrumento de avaliação de aprendizagem e assimilação da língua portuguesa, além de estimular o desenvolvimento da abstração e da argumentação, mas - não conte esse segredo a ninguém - hoje, como professor, uso quando, em casos extremos, não tenho condições de preparar ou aplicar aulas. Essa redação, ainda me lembro do título, que era o nome de um dos personagens, que também era personagem de um famoso desenho animado americano: Cobra Kan, só não me lembro do tema nem do desenvolvimento da trama, apesar de gostar muito de inventar estórias desde muito cedo, algumas eu escrevia, outras eu ia inventando e encenado automaticamente, não me lembro da maioria delas, não guardei nenhuma, mas me lembro de muitos dos personagens, inventados ou emprestados. Essa redação agradou por demais a Dona Cidinha, tanto que, no dia seguinte, ela elegeu as três melhores para serem lidas por elas perante a classe, e com suspense e tudo, pra saber quem teria sido escolhido melhor redator, claro que eu esperava que a minha fosse, também, escolhida, afinal, como toda criança normal, também tinha minha vaidade, mas, mesmo assim, fiquei surpreso quando ela disse o nome de minha redação, e não em terceiro ou em segundo lugar, mais em primeiro. Era a glória, na primeira semana, condecorado e admirado pelos colegas, ou melhor, pelas colegas, os colegas não admiravam, respeitavam - coisa muito nobre naqueles tempos, que não vejo mais hoje, hoje entre os garotos só vejo inveja ou despeito em relação às habilidades individuais -, apenas um dos colegas, me lembro até de seu nome, um antagonista a gente nunca esquece, Alexandre de Lima - coincidência onomástica, e houveram muitas naqueles tempos - que passou a competir comigo desde então, a cada vez que a Cidinha elogiava uma de suas redações, eu era a primeira pessoa a quem ele vinha mostrar a parabenização documentada em vermelho no seu escrito. Como ele percebia que eu não me importava muito com isso, nem com ele, então apelava pra violência física, aí então ele conseguia, não só me vencer, mas, também, que todos prestassem atenção nele, porém, esse assédio não durou muito, pois, assim como seu irmão e outros membros da família, ele tinha envolvimento com drogas, e logo foi convidado a se retirar da escola, toda sua família teve o mesmo destino, com relação à cidade, mais tarde. Por causa dessa violência me fechei de novo - vocês podem notar que não falei mais de minha irmã, isso porque o sucesso repentino me fez ter coragem de deixar ela de lado, com seu grupo de amigos, e buscar o meu, afinal, ela estava segura, era muito mais independente e segura do que eu - passei a não acompanhar mais aquela turma, mesmo ficando sozinho, nunca tive problemas em estar sozinho, então saquei meu Transformer do bolso - alguém se lembra disso? - e passei a brincar com ele, como se eu mesmo o fosse - naquele tempo andava sempre com um brinquedo, hoje ando sempre com um livro -, então apareceu um garoto, da quarta série, muito magro e mais baixo que eu um pouco - mais tarde vim a saber que era três anos mais velho que eu, isso significava que havia sido reprovado pelo menos mais duas vezes a mais do que eu, por não ter conseguido aprender a ler no tempo correto -, perguntou se podia ver meu brinquedo, e, como já estava um tanto embrutecido pelos desencontros daquela semana, disse não. Curto e seco: "Não". Ele não demonstrou chateação, pois o que pretendia mesmo era fazer amizade e não ver o brinquedo, virou-se e foi embora. Depois disso, nos encontramos muitas vezes pelo bairro, em quermesses, gincanas escolares, peladas... mas nunca nos falamos, apesar de trocarmos olhares, do tipo que se vê entre personagens de filmes de Western, sempre achei que seria mais um de meus inimigos. Até que chegou o encontro definitivo; aconteceu que minha irmã - de novo ela - se matriculou num curso dominical, coisa que já abominava desde então, e ficou amiga, como sempre, da turma da igreja, dessa turma também, fazia parte o garoto magro e mirrado, a quem havia negado amizade. Nessa época, já com doze anos, estava, desde a quarta série, matriculado em uma escola mais bem conceituada no centro da cidade. O garoto, que era o único em um grupo de umas cinco meninas, chegou, com as novas amigas de minha irmã, até a de minha casa, trazendo um violão guardado em uma capa própria para isto, me olhou da mesma maneira que me olhava quando nos cruzávamos pelo bairro, sentou na calçada, sacou sua arma da sacola, e começou a se entreter com aquele brinquedo, que era muito melhor que o meu, e que, também, agradava as meninas ali perto, até mais do que minhas redações ou versos - também os fazia naquele tempo, para ganhar beijos. Depois desse dia, viramos amigos do peito, amigos de troca, amigos de admiração mútua; tanta era a admiração, que cheguei a aprender a tocar alguns instrumentos - lógico que já gostava muito de música: fazia versos, porque pareciam canções - e pensei até em viver de música, por boa parte de minha adolescência e juventude, na verdade, a cada vez que pego num violão pra tocar, penso naquela competição sadia que havia entre nós, competição que nos fez crescer como músicos e pessoas. Hoje, o tempo e o espaço nos afastaram, mas, se eu sei reconhecer uma amizade verdadeira, e cultivá-la, foi por ter conhecido o Leandro, mas ainda, às vezes, faço um certo charminho quando percebo uma amizade que desponta, só pra ter certeza se vale a pena.
Nasci na cidade São Paulo em 1976. Por volta de 1984, quando tinha oito anos, minha família morava em um bairro chamado Butantã. Num daqueles muitos dias ensolarados - engraçado, mas só me lembro de dias ensolarados nessa época - meu pai estacionou um Chevete Branco e acionou a buzina, que mais parecia um berro de cabra - a buzina estava rachada. Não me lembro o que fazia antes disso, antes dessa chegada triunfal, só me lembro de ser pego de surpresa nesse momento, não pela chegada do velho, que ainda era moço, pois ele sempre chegava à mesma hora todos os dias, mas pela alegria espontânea que tomou conta de mim naquele momento, alegria que, na verdade, irradiava dele. Corri pra fora e, antes que ele alcançasse o portão, para abri-lo, o fiz e tentei alcançar seu pescoço com um salto, tentando abraçá-lo, coisa que não consegui, pois não tinha estatura nem força suficiente: ambos tivemos que nos conformar com um abraço a altura da cintura. Ele ficou espantadíssimo com minha atitude insólita, percebi isso no seu sorriso, na sua voz e no seu toque. Depois dessa breve eternidade, desci daquele monte e o ajudei a abrir o portão, pra que pudesse por o carro dentro da garagem, enquanto ele estacionava, saía pela porta da sala, a pessoa a quem ele mais queria agradar, minha mãe, então sua felicidade inicial voltou. Ele já se acostumara com o desdém dela pelos agrados materiais e comuns com que ele tentava satisfazê-la - talvez do que ele realmente gostassea fosse de conquistar, de tentar convencer alguém de que suas idéias eram boas, coisa quase impossível pra quem escolhera se casar com uma mulher prática e com os pés no chão. Assim que ele saiu do carro, passou a querer mostrar o que havia conseguido, enquanto ela olhava de fora, eu aproveitei pra entrar, sentar no banco do motorista, pegar no volante e movimentá-lo de um lado para o outro, como faz toda criança, fingindo estar em alta velocidade em uma estrada qualquer. Nesse momento, só me lembro de minha mãe dizendo: "Como você vai pagar isso?" - meu pai havia trocado um Fusca sessenta e alguma coisa pelo Chevete - e voltar pra dentro abanando a cabeça negativamente, meu pai me disse pra não mexer na chave, que ainda estava no contato, e foi atrás dela dizendo: "Pô, Baxinha!", como ele sempre dizia quando percebia que não tinha agradado.
Fechei a porta do Chevete e continuei minha viagem por uma estrada qualquer, sem virar a chave, que ainda estava no contato. Enquanto ia viajando, pensava na vontade repentina que me tinha surgido de ser pai, de ser um pai igualzinho ao meu, de ser meu pai, dentro de Um Chevete Branco com uma buzina rachada, que mais parecia uma cabra berrando, quando acionada.
Encontrei Vasco e Luisa próximos à saída 111 da Via Dutra, em Taubaté, estado de São Paulo. Ele vestia um chapéu de aba, grande e surrado, olhando sempre para baixo, enquanto puxava uma carroça com caçamba um pouco menor que um fusca e duas traves com um travessão, por onde puxava o utilitário, distante um metro e meio dela, coisa que dava impressão de se tratar de um utensílio maior do que, na verdade, era, usava também uma bermuda feita de calça de brim cortada na altura do joelho, estava fechada apenas com o zíper, até próximo ao botão, que permaneceu fora da casa por todo o tempo em que Vasco esteve a vesti-la, o que não foi pouco. Sua barba grisalha, mais branca do que preta, parecia ter no mínimo uns seis meses de vida, contrastava com sua pele, também grisalha, mais negra do que branca: negra por mostrar descendência e branca por carregar sujidade. Ela vinha à sua direita atenta a tudo: ao tráfego, já que caminhavam no sentido oposto ao da estrada, no acostamento; ao lugar, já que se tratava de um trecho com algumas casas à margem da pista; aos passantes, que os miravam com certa estranheza, e não desviou seu olhar de mim e de Bruna, enquanto nos aproximávamos do valente casal.
Chegando mais perto, chamei o senhor pelo nome, pois ainda não nos tinha visto e sua companheira de jornada não o havia avisado de nossa presença. Ele nos olhou, primeiro pra mim, depois para Bruna, e sorriu como que espantado e surpreso, mas aberto a aproximação, parecendo tentando lembrar de onde nos conhecia, mas também parecia curioso: se não nos conhecesse, já era hora de fazê-lo. Confesso que esta reação me causou estranhamento, pois o que tinha lido sobre ele no jornal e as informações que me deram a seu respeito não correspondiam com esta cordialidade sutil e espontânea. Então, estanquei alguns segundos a analisar o que eu percebia e comparar com as informações que tinha, momento em que nosso Quixote passou a tomar iniciativa de abordagem, perguntando se também iríamos visitar a Santa. Quando iniciei a responder a indagação, com um aceno de cabeça, indicando negação, de forma lenta e ainda reflexiva, ele atropelou meu silêncio com uma segunda pergunta: “Tem cigarro?”. Disse que não.
Passado o choque, me aproximei de Luisa depois que ele passou a dirigir sua curiosidade a Bruna, também se aproximando dela, como se tivéssemos feito uma repentina e natural troca de casais. Minha conversa com Luisa não passou de um olá respondido por ela em um tom mais grave e seco, na verdade, continuei seguindo os movimentos de Vasco, que tentava parecer gentil e galante com Bruna, coisa que ela sabia, como ninguém, interromper sem ser indelicada ou esnobe: enquanto sorria, como se agradecesse o lisonjeio, desviava o olhar em minha direção, signo que o insólito galanteador percebeu rápido, apesar dos óculos escuros que Bruna usava, e, novamente, se pôs a caminhar em minha direção, mas sem deixar de, antes, perceber a expressão de Luisa a meu lado, que pouco mudara, mas que, para ele, deveria querer representar algo, pois seu sorriso diminuiu no mesmo instante, restando apenas um meio sorriso, quase forçado, no canto esquerdo da boca, e me dirigiu novamente aquela pergunta, mas sem tirar os olhos da patroa, desta vez com mais entusiasmo e firmeza no tom: “Então? Vocês não vão, também, ver a santa?”. Respondi que não.
8:30 já! A droga desse despertador não tocou de novo! Agora tenho que sair sem banho e sem café. O Jailson vai falar um monte quando me vir chegando atrasado. Também, quem inventou essa coisa de aulas aos sábados? E pela manhã, pra ajudar! Cadê minha calça? Putz! Acabou a calça limpa. Lá no cesto de roupa suja deve ter uma com cheiro razoável. Deixa eu ver: esta está ótima. Nem parece que usei ontem. Pronto, tá tudo aqui: telefone, carteira, dinheiro, pen drive, chaves... acho que dá pra tomar um café rápido na padaria. Afinal, vai ser impossível agüentar o falatório daquele professor sem um aditivo despertador.
- Bom dia, Seu Renato! Tudo certo?
- Tá sim. Sem novidade.
- Falou! Até mais!
- Boa aula, Pedro!
- Valeu!
Esse Renato é mesmo um figura, conhece o pessoal do edifício todo, inclusive os adjacentes, faz de tudo pra agradar a todos. Bem, deve fazer parte da função de porteiro. Parece um pouco com a de jornalista: sabe tudo de todos, tenta ser imparcial e não se envolve nem se aprofunda em assunto nenhum. Por isso escolhi essa carreira, não estou nem um pouquinho interessado em mudar o mundo, mas quero saber e contar quem o fez, quando, e por que.
- Bom dia!
- Oi, moço! Pingado e pão na chapa?
- Não. Hoje, só um cafezinho com leite. Acordei atrasado.
- Ficou até tarde na balada ontem, né?
- Pior que não, Silvia. Eu tava era cansado mesmo. Trabalhar durante o dia e estudar à noite não é fácil. E o jornalismo é só correria. Por mais facilidade de comunicação que tenhamos hoje em dia, a gente precisa estar sempre na rua. Ainda mais nessa cidade que quase não produz pauta.
- É. Entendo. Taubaté é meio parada mesmo.
- Não é isso. Acontece que jornal vive de notícia, de acontecimento, e eu, na verdade, me interesso pela área de cultura, e como aqui o pessoal que produz arte não é lá muito ativo nem inovador, tenho que caçar outras novidades pra entreter o leitor, e, geralmente, consigo apenas notícias sobre política. Esses sim, os políticos da região, inventam falcatruas e picaretagens quase que diariamente.
- É...
- Bom, preciso andar. Quanto é o café?
- Noventa.
- Tá aqui. Trocadinho.
- Obrigada.
- Até mais.
Como é difícil conversar com as pessoas dessa cidade! Elas levam tudo pro lado pessoal. Só estava relatando um fato real e concreto, e ela parece achar que estava lhe chamando de caipira. Além do mais, ser caipira é até motivo de orgulho, eu também sou, sou dessa terra de bandeirantes, de mineradores, de cafeicultores e de tudo mais que engrandeceu nossa terra de cidades mortas, até a chegada de Lobato com seu Jeca Tatu. Mas as coisas mudaram, e muito. Taubaté ficou com tanto medo de perder o controle sobre sua cultura, baseada em raízes e tradições de sua gente, que nem isso tem mais. Cidades vizinhas apostaram no futuro, e aumentaram seu IDEB e sua arrecadação, abriram suas portas para o estrangeiro e sua cultura, e conseguiram fazer resgate de suas tradições e mantê-las vivas e criativas, exatamente por servirem de contraponto ao que vinha de outras bandas, contribuindo para a riqueza da diversidade, se opondo à pobreza da monocultura taubateana.
- Bom dia, Emerson!
- Bom dia!
Esse também é porteiro, mas parece menos interessado em se comunicar do que o Renato lá do edifício. Talvez as pessoas aqui na faculdade se comuniquem tanto que o Emerson fique até cansado de saber tanto, ou fique encabulado por todos quererem saber tanto, sobre sua vida, sobretudo.
Aula de sociologia. Professor Jailson. Quando vi a disciplina como parte do currículo da faculdade, achei interessante, mas esse Jailson... é difícil de engolir. O cara se gaba por ser o professor comedor do curso, leu uma porralhada de filósofos e a única coisa pra que isso serviu foi pra ele se mostrar pedante e levar as calouras pra cama, e, de preferência, as lourinhas. Um professor de sociologia afro descendente, que tem fetiche por alunas novatas, brancas e, como ele diz, alienadas, isso daria um bom roteiro pra cinema, ou talvez um estudo comportamental psicológico. Qualquer dia converso sobre isso com a Bruna.
- Senhor Pedro de Alcântara, o Senhor sabe que de imperador só tens o nome, não é? Então não lhe pedirei mais uma vez para que chegue no horário estipulado pela universidade, junto com seus colegas, que têm as mesmas dificuldades que o senhor.
Eu sabia que ele não iria perder essa oportunidade de chamar minha atenção. Agora vai me perguntar sobre a leitura recomendada pra hoje e me submeter novamente, por ter assistido a um documentário a respeito.
- O Senhor leu Darci Ribeiro, “Casa Grande e Senzala”, como a grande maioria nesta sala o fez?
- Não. Mas assisti aos documentários “Casa Grande e Senzala” e “Povo Brasileiro”, ambos com a participação do próprio Darci Ribeiro.
- Muito bem, Senhor Alcântara! O Senhor já está pronto para o mercado de trabalho no ramo de comunicação, onde não se encontra leitores, e somente televisionários. Se queres um diploma, lhe entrego um agora, o meu, já que não queres aprender e, logo, eu não posso ensinar. Então o Senhor poderá se empregar e continuar massificando a comunicação que já virou geléia geral há muito tempo.
- Espera, Jailson, já te falei muitas vezes que entrei nesse curso por que queria mesmo ser cinegrafista, e nem penso muito além disso. Sempre gostei de documentários, e esse é meu interesse maior, não pretendo ser acadêmico, escritor, intelectual nem bambambam de coisa nenhuma, por tanto, o que precisava saber sobra Darci Ribeiro consegui captar através dos documentários a que assisti, inclusive como se produzir um.
- O Jailson pegou no teu pé mesmo, heim, Pedro? Eu vou querer um café, por favor.
- Pra mim também. É, Ana. Já faz tempo que tento ficar na minha, não falar muito, fazer o que se pede, mas qualquer deslize se torna motivo pr’uma tempestade de desaforos.
- Você percebeu, Ana, que o Jailson discursava como se tentasse convencer alguém da superioridade do povo mestiço brasileiro. Vamos sentar ali! Tem lugar pra três.
- Sim, Wander. Será que ele tava tentando seduzir outra caloura ou se impor ao nosso amiguinho branquelo aqui.
- Aí é que tá: vai saber? Vai ver ele resolveu repensar seus conceitos sexuais e anda querendo discutir isso com nosso D. Pedro.
- E, cara, sai que é rolo! Já te falei que tô satisfeitíssimo com minha sexualidade, ainda mais com uma mulher como a Bruna do meu lado.
- Só que ela nem é tua mulher nem tá do teu lado agora.
- Não, mas é como se fosse, além de namorada, é amiga, irmã e mãe.
- E também não tá do teu lado, mas é como se estivesse.
- Pois é, meu caro.
- Mas, quando você bebe, vira uma moça.
- E é quando mais tenho vontade de estar com ela.
- Pois, se você se descuidar, eu te dou uns amassos da próxima vez que te encontrar no bar, chorando tuas mágoas de novo.
- Puta que pariu! Por isso que tem tanta gente homofóbica no mundo. O cara tenta ser compreensivo, aceitar a diversidade, e acaba por ser desrespeitado em sua individualidade. Vai à merda, meu! Esse negócio de amigo gay não existe.
- Hum, que grosseria!
- Calma, Pedro! Porra! Você também é foda, Wander!
- Que culpa tenho eu da paixão do Jailson por esse daí.
- Falou, pessoal. É melhor eu encontrar com a Bruna lá na psicologia. Até mais.
Bolas! Só o amor salva.
Se não fosse a Bruna, acho que já teria feito muita besteira por aí. Sempre que meu sangue ferve, a imagem dela me vem e eu me seguro um pouco mais.
Feliz dia aquele em que ela se aproximou de mim enquanto assistíamos a palestra do Caco Barcelos durante a Semana de Comunicação. Foi, realmente, um encontro mágico: sempre me interessei muito por psicologia e conflitos sociais e, de repente, uma psicóloga em formação aparece a meu lado em um debate sobre jornalismo e sociedade. Depois que minha mãe faleceu, ela se tornou meu único porto seguro, e olha que não é fácil agüentar minhas paranóias e inseguranças, se eu e ela não nos casarmos, acho que passarei a vida toda procurando-a em outras mulheres.
o restante da parte (1) se encontra no seguinte site:
Incrível! Mas em pleno Século 21, com globalização, com pessoas se comunicando, se divertindo, se informando, se aprimorando, se casando e até tendo prazer através de máquinas; eis que surge, no palco do SESC São José dos Campos, um destoante grupo, fazendo do corpo seu instrumento de expressão, de interação e de "formação de rede". Pra não dizer que, absolutamente, máquina nenhuma foi utilizada na apresentação deste último dia nove, dois de seus integrantes (o grupo estva composto por quatro homens e três mulheres em perfeita harmonia e sincronização) se apropriaram de uma flauta de madeira, à maneira nordestina, e um instrumento de metal, que serviam para "enriquecer" o arranjo das músicas apresentadas, entre elas um clássico um clássico de nossa MPB: "Carcará"
O grupo interagiu com o público, improvisando vocalizações e batuques corporais com ele. Público que respondeu muito bem, com energia e querendo mais. Misturou música brasileira com Rap, ou repente, não sei bem, fez coreografia, enfim: trouxe o corpo pro palco. Nos mostrou, pobres escravos, servos de máquinas dos mais diversos tamanhos e funções, o quanto ainda tememos nossa natureza e nosso poder criativo e transformador.
Essa apresentação me fez lembrar de meus antigos amigos "bicho-grilo" e de suas idéias naturalistas, antiglobalização: voltei a acreditar que, um dia, o corpo ainda vai transformar o mundo.
Hoje, assistindo ao jornal regional pela TV, me deparei com esta estranha, pelo menos pra mim, definição de qual teria sido a provável causa da tragédia que desabou sobre s. luís: "foi uma chuva milenar". Assim a senhorita, funcionária pública do Estado de São Paulo, tentava explicar que o que ocorreu em nossa cidade querida - não porque vivamos nela, mas porque a adotamos como nossa cidade do coração (nós, vale-paraibanos) -, berço dos músicos mais criativos da região e importante polo de produção e divulgação da cultura de nossa terra, a madame, anteriormente citada, dizia que não seria possível ter previsto tal tragédia e que isso, muito dificilmente, ocorreria novamente, afinal, se tratava de "uma chuva milenar" e, assim sendo, deveríamos esperar por outra apenas daqui a mil anos. Ora, minha senhora, será que não atentastes para o que vem acontecendo no Brasil e no mundo já há algum tempo? Quando é que seus pais já tinham ouvido falar em furacões em nosso País Tropical? - minhas avós morreram sem ver isso acontecer, e isso não tem sequer quinze anos - E terremotos? Será que seus pais iam dormir com medo que suas casas tremessem durante a noite? Pois é! Não estou dizendo que o Estado de São Paulo, ou qualquer seguimento público, tenha culpa de tal calamidade. Também não estou dizendo que, efetivamente, isso poderia ter sido previsto e remediado, mas a ordem pública, na qual nos incluímos também, cidadãos comuns, tem o dever de fazer o possível para ajudar a população luísense a concertar o pouco que ainda restou em pé e reconstruir o que já não mais existe, inclusive o moral do povo do lugar.
Trata-se apenas de termos consciência de que aquela gente não dava a menor importância para nosso modo de vida, com nossa correria diária, atrás do que nem sabemos, só sabemos que temos que correr; para nosso capitalismo feroz e invencível, a não ser que também optássemos por fugir pra s. luís; para esse nosso costume de nos vermos somente em ocasiões especiais, inclusive quando se trata de parentes e amigos próximos. Aquela gente preferia ter pouco e amar muito; preferia correr menos e viver mais; preferia saber tudo a conhecer o mundo. No entanto, a globalização do consumo, da exploração (humana e natural), do fast food, da superficialidade, caiu sobre eles em forma de "chuva milenar". Ou alguém descorda que essa chuva e outros “desastres” climáticos deve muito ao efeito causado pelo desequilíbrio consequente do desrespeito mercadológico pela natureza. Não sei não, mas tenho a impressão que essa tal chuva voltará ano que vem, e nos próximos também. Acho que seria até melhor perguntar a um dos sábios de s. luís, afinal, eles têm mais condições de analisar essa vida sem freio que atropelou sua cidade.
O luísense nos presenteava todos os anos com belas canções, animadas marchinhas, naifs de primeira qualidade e com sua gentil cordialidade, não queria participar de nossa corrida maluca e, mesmo assim, saiu perdendo. Temos mais do que obrigação de ajudá-los a se reerguer. E, sinceramente, tenho ainda esperança de que este ano o carnaval de s. luís continue sendo o melhor da região, por que é o único que não imita o que vem do Rio através da Rede Globo, aliás, a Globo não mostra nem vai mostrar o novo carnaval de rua do Rio, que, entre outras coisas, trás marchinhas como principal atração. Será que os cariocas também nos devem essa generosidade criativa?
Hoje, como quase todos os dias, fui almoçar em um restaurante que fica nas proximidades do apartamento em que resido. Fui só, como quase sempre. Estava um sol típico de meio-dia no verão: quente e luminoso, acompanhado de uma brisa que fazia lembrar as manhãs do litoral. Assim que saí do edifício onde moro, quando já me encaminhava para o restaurante, um amigo, freqüentador da sorveteria que fica logo em frente, me chamou de volta pra me perguntar quando me mudaria - ele havia me recomendado ao síndico de seu edifício, já que um dos apartamentos tinha ficado vago e ele sabia de minhas pretensões de mudaça de endereço - respondi que iria demorar mais dois ou três dias. Ele então me recomendou um de seus amigos, que fazia carreto, para me ajudar na mudança. Conversamos um pouco mais sobre o assunto, nos despedimos e retomei meu caminho. Nele fui pensando sobre as relações que surgiram entre mim e as pessoas nos últimos tempos: queria ficar em paz com minhas frustrações e amarguras, mas algumas delas se esforçavam, e muito, para se aproximarem, fato que demorava a aceitar, e, quando aceitava, era com receio, o famoso pé atrás. Enquanto caminhava também refletia sobre a condição de estar sozinho – refletia, talvez não, melhor seria constatava a tal condição – e começava a prestar mais atenção em tudo o que me cercava: tudo, sim e somente, pois, por estarmos num fim de feriado prolongado, não havia um só passante pelas ruas da cidade, portanto, não poderia dizer também que prestava atenção a todos. Esta procura pelo aqui e agora me causou uma certa angústia: por que não havia aproveitado um pouco mais o papo com Ronaldo, o amigo da sorveteria, já que nem mesmo estava com fome – saí para almoçar, por que era meio-dia – e ninguém, no restaurante, me esperava, nem mesmo o proprietário, pois nunca fui de comer muito, por tanto não faria diferença se fosse lá ou não. Ao entrar no estabelecimento, tudo como quase sempre, apenas os humores indicavam certa vitalidade, pois pessoas diversas, com seus diversos humores, passavam por ali todos os dias. Peguei minha comanda, me dirigi ao balcão de alimentos, o restaurante, além de churrascaria, é também sef-service, muito comum nos dias de hoje, por ser econômico, rápido e prático – às vezes, mais prático e rápido do que econômico – peguei uma porção de maionese com bacon, uma salada de alface e tomate, um pedaço de pernil e uma lasanha ao molho branco. Quando me sentei à mesa, próximo a televisão, como faço sempre, reparei que, na TV, passava uma entrevista com um lutador de boxe famoso, feita por um narrador esportivo, também famoso, coisa que me interessava muito pouco, além do fato de o primeiro parecer muito efeminado, fato comprovado quando, logo depois, apareceram cenas de um outro lutador, já aposentado, da categoria peso galo, da mesma maneira, muito famoso, e o segundo um pouco animado demais em entrevistá-lo. Então passei a saborear com vagar cada uma das porções que havia colocado no prato. Você pode perceber que desde que entrei no restaurante parei de pensar sobre o que me angustiava até ali, deve ser por conta de um certo cuidado e carinho com que passei a me alimentar depois de adulto. Este é o ponto onde queria chegar: depois de acabada a refeição, comecei, novamente, a refletir em minha condição de solidão e, agora sim, nas pessoas que me cercavam; algumas sós, e satisfeitas; outras acompanhadas e satisfeitas; outras ainda que pareciam ocupadas, como eu também devia ter parecido enquanto comia, e outras realmente ocupadas, pois estavam nos servindo, ou nos cobrando. Acontece que em 1999, decidi fazer somente o que gosto, até então havia agradado a todos, meus pais, meus amigos, minhas amigas, minha namorada. Todos eles sabiam o que seria melhor pra mim, eu não. Há dez anos abandonei todos e passei a planejar meu destino, a desenhar meu lugar no mundo. Passei usar o salário do emprego que tinha, e de que todos se orgulhavam, para terminar a faculdade, o que me trouxe até aqui; passei a conviver com pessoas dispostas a ouvir o que eu tinha a dizer; passei a aceitar amigos que, a princípio, não seriam boa companhia, pois não tinham grandes ambições; e, principalmente, passei a aceitar minha essência de sossego, leitura e reflexão. Por causa disso, por querer me impor enquanto individuo na família e na sociedade, cheguei até a passar fome, por duas vezes: a primeira, quando resolvi largar uma mulher que disse, um dia, que eu não precisava frequentar uma universidade, então deixei também meu trabalho, já que estava nele pra poder me casar; e a segunda quando deixei aquele emprego na indústria, pelo qual todos me felicitavam, inclusive uma outra garota que, por conta de ter tomado essa decisão, também me deixou. E, por ter passado fome, por ter vivido em lugares não muito agradáveis, por não ter tido apoio de ninguém em minhas decisões, é que me sinto tão satisfeito com um bom prato de comida, a ponto de parar inclusive de pensar na solidão que isso me custou, talvez por isso continue tão receoso em aceitar “amigos” que têm muitos conselhos pra me dar, sem sequer querem saber o que penso e o que sinto, então, acho que o “pé atrás” será parte integrante de minha personalidade por muito tempo ainda, afinal, graças a ele, estou aqui me expondo em letras, enquanto leio e reflito em paz, no sossego.
P.S. Me lembrei agora do verso de uma canção de Chico Science: “O homem roubado nunca se engana”
Até o fim de janeiro, estarei empenhando em registrar um documentário ficcional que tem me ocupado o cerebelo frontal há algum tempo. Trata-se da história de um casal de andarilhos que perambula sem destino há, pelo menos, trinta anos por este país. Suas aventuras, sentimentos, impressões e "planos" serão contados por um estudante de jornalismo, que pretende produzir um documentário como parte de sua tese de conclusão de curso.
Portanto, amigos, serei "o desasparecido" neste curto janeiro, mas, por favor, não se esqueçam de mim: se souberem de algo bacana em algum lugar, me avisem, afinal, os malucos também amam.
Tentarei dar notícias minhas e de meus personagens sempre que possível neste blog.
Em Outubro sairá CAIM, o novo título de José Saramago.
A partir do dia 15 de outubro estarão disponíveis as edições em português, castelhano e catalão de CAIM, permitindo que os leitores da América Latina e da Península Ibérica possam ter acesso ao livro em simultâneo.
A apresentação do livro terá lugar no domingo, 18 de outubro, pelas 21.30 Horas, no Museu Municipal de Penafiel, Portugal, integrado na 2.ª edição do Encontro Literário "Escritaria".
Saramago escreveu outro livro. O seu título é “Caim”, e Caim é um dos protagonistas principais. Outro é Deus, outro ainda é a humanidade nas suas diferentes expressões. Neste livro, tal como nos anteriores, “O Evangelho segundo Jesus Cristo”, por exemplo, o autor não recua diante de nada nem procura subterfúgios no momento de abordar o que, durante milénios, em todas as culturas e civilizações foi considerado intocável e não nomeável: a divindade e o conjunto de normas e preceitos que os homens estabelecem em torno a essa figura para exigir a si mesmos - ou talvez fosse melhor dizer para exigir a outros - uma fé inquebrantável e absoluta, em que tudo se justifica, desde negar-se a si mesmo até à extenuação, ou morrer oferecido em sacrifício, ou matar em nome de Deus.
Caim não é um tratado de teologia, nem um ensaio, nem um ajuste de contas: é uma ficção em que Saramago põe à prova a sua capacidade narrativa ao contar, no seu peculiar estilo, uma história de que todos conhecemos a música e alguns fragmentos da letra. Pois bem, com a cabeça alta, que é como há que enfrentar o poder, sem medos nem respeitos excessivos, José Saramago escreveu um livro que não nos vai deixar indiferentes, que provocará nos leitores desconcerto e talvez alguma angústia, porém, amigos, a grande literatura está aí para cravar-se em nós como um punhal na barriga, não para nos adormecer como se estivéssemos num opiário e o mundo fosse pura fantasia. Este livro agarra-nos, digo-o porque o li, sacode-nos, faz-nos pensar: aposto que quando o terminardes, quando fizerdes o gesto de o fechar sobre os joelhos, olhareis o infinito, ou cada qual o seu próprio interior, soltareis um uff que vos sairá da alma, e então uma boa reflexão pessoal começará, a que mais tarde se seguirão conversas, discussões, posicionamentos e, em muitos casos, cartas dizendo que essas ideias andavam a pedir forma, que já era hora de que o escritor se pusesse ao trabalho, e graças lhe damos por fazê-lo com tão admiráveis resultados.
Este último romance de José Saramago, que não é muito extenso, nem poderia sê-lo porque necessitaríamos mais fôlego que o que temos para enfrentar-nos a ele, é literatura em estado puro. Dentro de pouco tempo podereis lê-lo em português, castelhano e catalão, e então vereis que não exagero, que não me move nenhum desordenado desejo ao recomendá-lo: faço-o com a mais absoluta subjectividade, porque com subjectividade lemos e vivemos. E falo aos amigos, porque esta carta apenas a eles vai dirigida. Com muita alegria.
Felicidades a todos os leitores: um ano depois de A Viagem do Elefante temos outro Saramago. São três livros em um ano, porque também há que contar com O Caderno, o livro que vamos lendo aqui em cada dia. Não podemos pedir mais, o nosso homem cumpriu, e de que maneira. A idade, amigos, aguça a inteligência e agiliza a capacidade de trabalho. Que sorte a nossa, leitores, de ter quem nos escreva.